A arte da conversação - René
Magritte
"A arte da conversa: numa paisagem de começo do
mundo ou de gigantomaquia, dois personagens minúsculos estão
falando: discurso inaudível, murmúrio que é logo retomado no
silêncio das pedras, no silêncio dessa parede em desaprumo que
domina, com seus blocos enormes, os dois tagarelas mudos; ora,
esses blocos, amontoados em desordem uns sobre os outros, formam,
em sua base, um conjunto de letras onde é fácil decifrar a palavra:
RÊVE - sonho (que é possível, olhando um pouco melhor, completar
com TRÊVE - trégua - ou CRÈVE - morte, ou morra, arrebente), como
se todas essas palavras frágeis e sem peso tivessem recebido o
poder de organizar o caos das pedras. Ou como se, ao contrário, por
trás da tagarelice despertada mas logo perdida dos homens, as
coisas pudessem, em seu mutismo e em seu sono, compor uma palavra -
uma palavra estável que nada poderá apagar; ora, essa palavra
designa a mais fugidia das imagens. Mas não é tudo: pois é no sonho
que os homens, enfim reduzidos ao silêncio, comunicam com a
significação das coisas, e se deixam impressionar por essas
palavras enigmáticas, insistentes, que vêm de outro
lugar."
Michel
Foucault - Isto não é um cachimbo